12/02/2018 08:38:00

'Que tiro foi esse?': um país violentado, uma sociedade em decomposição

As agressões tiveram início a partir da invasão dos portugueses e da crueldade dos bandeirantes contra os indígenas.
Autor: Por Élio Gasda*

A violência, em suas diversas formas, é um dado histórico presente na construção da sociedade brasileira. Um país colonizado a ferro e fogo. As agressões tiveram início a partir da invasão dos portugueses e da crueldade dos bandeirantes contra os indígenas. O que dizer da escravidão dos negros? Foram muitas as revoltas e rebeliões (seriam guerras civis?). A violência é uma chaga! O Brasil, apesar de ser um dos países mais violentos do mundo, alimenta o mito da cordialidade do seu povo. Um país cristão. Será? A violência é uma realidade. O sistema é violento. Está nas ruas, no comércio, no trânsito, no transporte, no trabalho, na escola, nos jogos virtuais, nas redes, na música, no cinema, na TV, dentro de casa. Relações sociais abaladas por motivos banais. Gentileza dá lugar à hostilidade.  

É a família o primeiro espaço da violência, muitas vezes oculta. Pais agressivos podem gerar filhos agressivos, reproduzindo um ciclo de violência de geração a geração. Os índices de violência doméstica são maiores do que as denúncias registradas. O alto grau de agressão contra a mulher está na raiz do feminicídio e do estupro. A viralização do funk "Surubinha de leve" trouxe à tona a imagem machista da mulher-objeto. A taxa de feminicídios no Brasil é a quinta maior do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). São oito mulheres mortas por dia (Ministérios Públicos Estaduais). É também o país onde mais se mata travestis e transexuais. A cada 48 horas uma pessoa trans é assassinada (Associação Nacional de Travestis e Transexuais - Antra).

Sociedade da brutalidade, onde violência se combate com mais violência. Apesar de possuir menos de 3% da população mundial, o Brasil responde por quase 13% dos assassinatos do planeta. Defende-se uma arma para cada cidadão, construção de mais presídios, redução da idade penal. Cinco pessoas são mortas por arma de fogo a cada hora, 123 por dia (Mapa da Violência 2016). Instituição da pena de morte, linchamentos, bandido bom é bandido morto. A “gente de bem” vibra quando alguém “do mal” é morto. Essa violência é seletiva, não atinge a todos. A cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras, jovens e da periferia (Atlas da violência 2017).

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo. Rebeliões em presídios se tornaram comum. Este ano foi no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia (Goiás), ano passado em penitenciárias de Manaus, Roraima e Rio Grande do Norte. Numa sociedade violenta e injusta, o sistema carcerário cumpre sua função: torturar e matar os pobres que estão atrás das grades. Violações de direitos, superlotação, tortura e morte fazem parte do cotidiano das prisões. A ineficiência do aparato judicial é vergonhosa. São mais de 650 mil presos vivendo em condições degradantes e, grande parte, sem uma sentença definitiva por conta da morosidade da justiça.

Na cidade e no campo. O Brasil detém o título de país mais violento para populações que vivem no interior. Nos últimos 13 anos, 891 indígenas foram assassinados (Conselho Indigenista Missionário), média de 68 por ano. O (des)governo Temer já registrou mais de 100 assassinatos por conflitos agrários (Comissão Pastoral da Terra). Em Colniza (MT), nove agricultores foram torturados e assassinados por pistoleiros. Em Pau D’Arco (PA) Policiais militares e civis executaram dez trabalhadores rurais.

O sistema é brutal e terrorista (Papa Francisco). Não há solução para a violência fora da política. A pobreza é a pior forma de violência. “Enquanto não se eliminar a ex­clusão e a desigualdade dentro da sociedade e en­tre os povos será impossível desarraigar a violência” (Evangelii Gaudium, n. 59). Preto, pobre e favelado é do mal. Mas branco rico transporta droga (em quantidade) em helicópteros e nada acontece. Tem “proteção da justiça”. O Estado se faz presente nos lugares onde residem os endinheirados. O dinheiro demarca territórios de paz e de guerra. A segurança é privilégio para poucos. Só para uma casta composta por muitos juízes, alguns políticos, empresários, donos da mídia e do sistema financeiro.

Sem ingenuidade: não existe uma fórmula mágica para resolver o problema. A violência está destruindo pessoas, famílias, comunidades. Está destruindo o país. Combate-la é tarefa do cristão. Com o tema “Fraternidade e superação da violência”, tendo como lema “Em Cristo somos todos irmãos” a Igreja lança a campanha da fraternidade. “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que falam mal de vós e orai por aqueles que vos caluniam. Deus é bom também para com os ingratos e maus” (Lc 6,27-29.35-36). O ódio alimenta a violência, nos desumaniza. O coração humano precisa ser pacificado para que a violência seja derrotada. Em Cristo, somos todos irmãos.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

Fonte: Dom Total